segunda-feira, 1 de junho de 2009

Os Entardeceres, os Bichos e Eu

Hoje à tarde decidi caminhar ao parque, no entardecer, como sempre faço quando na solidão e tédio. Uma pancada de chuva havia afastado os desportistas do belo parque e eu não estava nada motivado propriamente para o exercício: queria caminhar ao léu. Evitar permitir que o profundo fastio me tomasse a ponto de olhar angustiado e longamente um ponto vazio, como vazio, de fato, estava.

Esse parque sempre me assombrou, desde o primeiro momento. É belo, com um amplo lago repleto de patos, pássaros, árvores e recantos plácidos. Tem um quê de ermo e misterioso, perigoso, até. Mas belíssimo. Pouco há, mais sublime, que o céu esvaecendo por entre os galhos, ao se caminhar vagaroso, olhando o sol a definhar e as aves de todas as cores e tamanhos voltando da jornada para abrigar-se da escuridão: um exército de plumas fatigadas.

Quando da primeira vez, após caminhar animado 500 metros diminuí o passo para compreender o que via: havia vários coelhos soltos, de todas as cores, pelos gramados. Diminuí o passo a observá-los, me pareceu algo estranhíssimo. Totalmente inesperado... Aumentei o passo, ainda impressionado, porém ao andar mais alguns minutos, estaquei embasbacado: uma família de capivaras se alimentava candidamente por entre galhos e gramas, completamente destemida, frente aos transeuntes. Cheguei até a temer, "esses bichos não atacam?"; "são grandes roedores, não?". Como era possível que em uma cidade como Campinas, em um parque público ao lado de umas das maiores universidades do país, existissem animais como aqueles, soltos, por entre as pessoas? Não haveria algum tipo de risco recíproco? Embora chocado, havia algo de exótico e delicioso em caminhar junto àqueles animais que me ignoravam solenemente, como se eu mesmo não fosse nada mais que um animal obviamente inofensivo.

Sim, pode tirar, esse é o meu lado fotogênico.

Continuei a caminhar lembrando que as capivaras sempre povoaram meu imaginário infantil. Meu avô contava de suas caçadas, do tamanho dos bichos, das disputas pela vida, das fugas inacreditáveis e dos jantares entre homens, no meio do mato, entre pescarias, tatus, pumas e tudo o mais.

Eu jamais havia encontrado uma capivara sem um fosso e muros bem altos que nos separassem... Pela primeira vez pude perceber que sempre houvera uma espécie de apartheid em relação a coexistência com certos animais. Refiro-me, as esses contextos de zoológicos, todos, na lembrança infante, bizarros, fétidos e desagradáveis. Confesso que não vejo objeções a continuidade do apartheid quanto às onças, os ursos e elefantes...

Mas ali, com uma capivara cruzando meu caminho como alguém que passa, frugal, para pegar algumas pedrinhas de açúcar era algo certamente um tanto insólito...

Porém, com o passar das semanas, fui-me acostumando a rotina com aqueles companheiros de jogging fora do comum. Hoje, ao voltar a caminhar no parque quase deserto, peguei-me a pensar sobre a possibilidade de que outros animais, caçadores carnívoros, pudessem ir ao parque para manjar coelhos, ovos de aves e filhotes de capivaras e continuei a caminhar, dessa vez mais vagaroso e instintivamente mais atento.

Oi, eu sou a Vilma, muito prazer! E vosmecê, é solteiro?

Ao caminhar cerca de 800 metros, sozinho em uma curva de mata densa, pude ver um animal de pequeno porte, há uma distância de 60 metros, que parecia um cachorro de 50cm de altura, correndo em círculos, muito rápido, porém bastante magro, com um rabo peludo, grosso e percebi que não se tratava de nenhum cão... Era um outro animal selvagem, bastante veloz e talvez perigoso. Diminuí o passo. Como era pequeno, tive vergonha de voltar daquele ponto (vergonha d'eu mesmo pois não havia mais ninguém por perto) e pensei, já bastante receoso, que o animal talvez temesse meu porte. Ele logo percebeu minha presença e manteve-se em uma postura entre defesa e prestes ao ataque. Seus olhos brilhavam no escuro das 18 horas como os dos gatos e percebi que ele um tanto abaixado, na expectativa, tentava entender o quão perigoso poderia eu ser, ou (uma vez que não especializado em psicologia de animais selvagens) o quão apetitosa minha canela poderia ser.

Continuei a caminhar. Ele estava agora há cerca de 6 metros e percebi que não se afastava. Ao passar pelo bichano vi que ele começou a me acompanhar lateralmente, mas mantendo a distância. Isso verdadeiramente me assustou, pois percebi que o bicho tinha algum tipo de expectativa de um jantar mais generoso. Bati algumas palmas para assustá-lo como reação instintiva com o susto que tomara e pude ver que de perto ele parecia um pequeno lobo. Logo desistiu de me perseguir e continuou correndo em círculos, muito rápido, ora entrando no mato escuro, ora saindo para o passeio, enquanto eu me afastava, apressado. Nesse momento senti uma vontade enorme de reafirmar os apartheids entre nós e os bichos... Eu aqui e você lá. Fossos, cercas e distâncias!

Foi irônico pensar que geralmente nos assustamos com a violência das cidades, medo de morrer em um assalto, ou acidente de carro ou coisa que o valha e eu estava ali, realmente assustado com o que poderia acontecer com um animal selvagem de 50cm, provavelmente morrendo de fome, que cogitava lanchar a piece of me (acho que Britney não chegou a pensar em uma tiradinha trash dessas). Enfim... foi uma experiência estranha e por incrível que pareça me ajudou a sair de meu persistente estado de espírito melancólico, ao menos por algumas horas, e sentir-me bastante vivo. Quando há algum tipo de exposição a um risco real (ou assim percebido) é bem comum sentir vontade de respirar a plenos pulmões... Suspirar feliz... por... por poder propriamente suspirar...

[Mas confesso que tive vontade de ter um spray de pimenta ou aquela coisa que dá choque para usar contra o bicho, se ele quisesse me atacar... Imagine a cena patética! Um homem de um metro e oitenta atracado com um bichinho de 50cm jogando-lhe spray e dando-lhe choques...].

Risível... Patético...

Um comentário:

Má índole para os plácidos. disse...

hahahahahahah!!!! muito bom. muito bom sentir medo. muito bom sentir-se vivo. adorei, me senti ali...só que eu era o bicho. hahahahahaha. Ka.