quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Dos Vínculos e de Como Perder-se (e Achar-se) na Melancolia
Lembro-me de detalhes: do caminhar pelo Farol da Barra, das risadas, dos chistes, das negociações escusas diárias com taxistas, das gossip generalizadas, de las galletitas, de la dulce Niña Masturbadora (aka Fátima), de la Mujer Thailandesa (aka Giank), y de Penélope Cruz (aka Julie), como no!? Y también de Zeca e Neto, queridíssimos, que nos levaram pra lá e pra cá na bela Salvador...
E também de tantas outras pessoas muito especiais, como: Marília, Lia, Monique, Djaime-Boy (aka Nilmar), Laura, Germán, Gleydis, Lucimar, Georgia, Olívia, Maíra, Cris, Washington, Carla, Terezinha, Ivonete, enfim... Muita gente... D@s últim@s, alguns(mas) me aproximei mais do que outr@s, mas fiquei com um carinho e uma admiração grande por tod@s.
Pensei também em como eles agora estavam há milhares de quilômetros e que tenderíamos a nos ver bem esparsamente e fiquei triste, pesaroso... Como as pessoas passam por nossas vidas, deixam marcas tão fortes e se vão, talvez para todo o sempre? Enquanto eu estava com eles (e a convivência maior acabou sendo mesmo com Fatita, Giank, Julie e Zeca) me sentia muito bem, feliz, seguro e pleno, porém só percebi a importância dessas conexões e o caráter limitado que elas poderiam ter em seu sentido pleno dali por diante, apenas alguns dias após a partida deles (ou da minha própria partida)... Como o Tempo oferece such a rapture e ri-se de nosso êxtase ao compreender o irônico do que nos será extraído logo adiante... Como a visão da colher de sopa cálida que nos é oferecida para não ser dada...
O problema é que ao contrário de muita gente, eu não esqueço... Esses vínculos e a presença da ausência dessas pessoas que me apaixonaram de maneira fulminante me marcam por muito, muito tempo... Lembro-me de um amigo que fiz na 2a série e que há alguns anos não tenho mais notícia alguma. Lembro-me e sinto uma saudade doída, gostaria de saber como está, o que anda fazendo da vida, se deixou de ser depressivo-suicida como era na adolescência, se é feliz, se ainda recorda de nossa amizade.
Lembro-me de amigos há décadas... Não me esqueço, fazem-me falta doída... Penso vez em quando com uma melancolia áspera... Não esqueço e nada preenche essa ausência... O preço que se paga pelo arrebatamento...
Vez por outra é mais sentida essa presença da falta... Não é constante, necessariamente (thanks, god!)...
E apesar do ônus dessa dedicação amorosa aos amigos, eu prefiro sentir tudo... Seja dor, a felicidade, a saudade, a melancolia, enfim... sem Propofol nas veias... é melhor (d)existir with eyes wide open... Deixar-se tomar pela alegria e a dor de amar e deixar-se amar nas formas mais amplas permitidas pela plasticidade semântica...
Love hurts, já dizia a música cafona... Mas vale a pena, for sure.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
LENDO HAMLET
No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pó
e, por trás dele, brotou um rio azul.
Tu me disseste: "Então
vai para o convento
ou casa-te com um idiota..."
Só os príncipes falam sempre assim.
Mas eu me lembro dessas palavras:
deixem que elas flutuem por cem séculos
como um manto de arminho jogado sobre os meus ombros.

E como por engano
eu disse: "Tu..."
Iluminou-se a sombra com o sorriso
suave do meu amado.
Esse é o tipo de deslize da língua
que faz com que todo mundo fique te olhando...
Mas eu te amo, como quarenta
meigas irmãs.
Anna Akhmátova
1909
Kiev
domingo, 21 de junho de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Os Entardeceres, os Bichos e Eu
Esse parque sempre me assombrou, desde o primeiro momento. É belo, com um amplo lago repleto de patos, pássaros, árvores e recantos plácidos. Tem um quê de ermo e misterioso, perigoso, até. Mas belíssimo. Pouco há, mais sublime, que o céu esvaecendo por entre os galhos, ao se caminhar vagaroso, olhando o sol a definhar e as aves de todas as cores e tamanhos voltando da jornada para abrigar-se da escuridão: um exército de plumas fatigadas.
Quando da primeira vez, após caminhar animado 500 metros diminuí o passo para compreender o que via: havia vários coelhos soltos, de todas as cores, pelos gramados. Diminuí o passo a observá-los, me pareceu algo estranhíssimo. Totalmente inesperado... Aumentei o passo, ainda impressionado, porém ao andar mais alguns minutos, estaquei embasbacado: uma família de capivaras se alimentava candidamente por entre galhos e gramas, completamente destemida, frente aos transeuntes. Cheguei até a temer, "esses bichos não atacam?"; "são grandes roedores, não?". Como era possível que em uma cidade como Campinas, em um parque público ao lado de umas das maiores universidades do país, existissem animais como aqueles, soltos, por entre as pessoas? Não haveria algum tipo de risco recíproco? Embora chocado, havia algo de exótico e delicioso em caminhar junto àqueles animais que me ignoravam solenemente, como se eu mesmo não fosse nada mais que um animal obviamente inofensivo.
Sim, pode tirar, esse é o meu lado fotogênico.Continuei a caminhar lembrando que as capivaras sempre povoaram meu imaginário infantil. Meu avô contava de suas caçadas, do tamanho dos bichos, das disputas pela vida, das fugas inacreditáveis e dos jantares entre homens, no meio do mato, entre pescarias, tatus, pumas e tudo o mais.
Eu jamais havia encontrado uma capivara sem um fosso e muros bem altos que nos separassem... Pela primeira vez pude perceber que sempre houvera uma espécie de apartheid em relação a coexistência com certos animais. Refiro-me, as esses contextos de zoológicos, todos, na lembrança infante, bizarros, fétidos e desagradáveis. Confesso que não vejo objeções a continuidade do apartheid quanto às onças, os ursos e elefantes...
Mas ali, com uma capivara cruzando meu caminho como alguém que passa, frugal, para pegar algumas pedrinhas de açúcar era algo certamente um tanto insólito...
Porém, com o passar das semanas, fui-me acostumando a rotina com aqueles companheiros de jogging fora do comum. Hoje, ao voltar a caminhar no parque quase deserto, peguei-me a pensar sobre a possibilidade de que outros animais, caçadores carnívoros, pudessem ir ao parque para manjar coelhos, ovos de aves e filhotes de capivaras e continuei a caminhar, dessa vez mais vagaroso e instintivamente mais atento.
Oi, eu sou a Vilma, muito prazer! E vosmecê, é solteiro?
Ao caminhar cerca de 800 metros, sozinho em uma curva de mata densa, pude ver um animal de pequeno porte, há uma distância de 60 metros, que parecia um cachorro de 50cm de altura, correndo em círculos, muito rápido, porém bastante magro, com um rabo peludo, grosso e percebi que não se tratava de nenhum cão... Era um outro animal selvagem, bastante veloz e talvez perigoso. Diminuí o passo. Como era pequeno, tive vergonha de voltar daquele ponto (vergonha d'eu mesmo pois não havia mais ninguém por perto) e pensei, já bastante receoso, que o animal talvez temesse meu porte. Ele logo percebeu minha presença e manteve-se em uma postura entre defesa e prestes ao ataque. Seus olhos brilhavam no escuro das 18 horas como os dos gatos e percebi que ele um tanto abaixado, na expectativa, tentava entender o quão perigoso poderia eu ser, ou (uma vez que não especializado em psicologia de animais selvagens) o quão apetitosa minha canela poderia ser.
Continuei a caminhar. Ele estava agora há cerca de 6 metros e percebi que não se afastava. Ao passar pelo bichano vi que ele começou a me acompanhar lateralmente, mas mantendo a distância. Isso verdadeiramente me assustou, pois percebi que o bicho tinha algum tipo de expectativa de um jantar mais generoso. Bati algumas palmas para assustá-lo como reação instintiva com o susto que tomara e pude ver que de perto ele parecia um pequeno lobo. Logo desistiu de me perseguir e continuou correndo em círculos, muito rápido, ora entrando no mato escuro, ora saindo para o passeio, enquanto eu me afastava, apressado. Nesse momento senti uma vontade enorme de reafirmar os apartheids entre nós e os bichos... Eu aqui e você lá. Fossos, cercas e distâncias!
Foi irônico pensar que geralmente nos assustamos com a violência das cidades, medo de morrer em um assalto, ou acidente de carro ou coisa que o valha e eu estava ali, realmente assustado com o que poderia acontecer com um animal selvagem de 50cm, provavelmente morrendo de fome, que cogitava lanchar a piece of me (acho que Britney não chegou a pensar em uma tiradinha trash dessas). Enfim... foi uma experiência estranha e por incrível que pareça me ajudou a sair de meu persistente estado de espírito melancólico, ao menos por algumas horas, e sentir-me bastante vivo. Quando há algum tipo de exposição a um risco real (ou assim percebido) é bem comum sentir vontade de respirar a plenos pulmões... Suspirar feliz... por... por poder propriamente suspirar...
[Mas confesso que tive vontade de ter um spray de pimenta ou aquela coisa que dá choque para usar contra o bicho, se ele quisesse me atacar... Imagine a cena patética! Um homem de um metro e oitenta atracado com um bichinho de 50cm jogando-lhe spray e dando-lhe choques...].
Risível... Patético...
sexta-feira, 27 de março de 2009
Nunca soube o que pensar sobre o futuro.
Havia: medos, cores, causos, sinapses, escrituras, espremedores [da Walita], poltronas, parentes e leitores. Até bem pouco tempo não me havia pesado o espírito a massa do tempo.
Ocorre-me, sempre, a inutilidade da conversa, mas ora!
Que fazer?
Angustio-me!
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
"Corrente" da Entrevista
1. Livro/autor(a) que marcou sua infância.
"Camilo Mortágua" de Josué Guimarães, tinha eu, uns 11 anos. Lembro que era leitura obrigatória para a graduação de mi madre, porém ela chegava em casa exausta e ainda precisava ler para mim (eu a obrigava...). A coitada acabava cochilando com o livro na cara e eu, impaciente, o pegava e lia sozinho. Foi o primeiro que me mostrou ser completamente irrelevante a quantidade de páginas, afinal, a tendência para as crianças é de que quanto mais fino melhor... Mas há, depois, todos os de Monteiro Lobato, os quais li já meio velhinho, gastando minhas férias no onírico sótão de minha velha casa alemã (e cheirando muito pó - de pirilimpimpim!).
2. Livro/autor(a) que marcou sua adolescência.
“O Morro dos Ventos Uivantes” de Emily Brontë. Toda a adolescência passei sob a influência de Mr. Heathcliff: orgulhoso e vingativo. Mas depois fiquei, ok... A diferença, adulto, é que não deixo transparecer meu feitio... Descobri ser a melhor maneira de conquistar “Catherine” no final (e assim não ficar in love com defuntos). Ah, e também “O Apanhador no Campo de Centeio” de J. D. Salinger, o qual li com a idade de Holden Caulfield... Fiquei perturbadíssimo. Dali que surgiu a certeza que eu era um bicho urbano. Engraçado pensar como a literatura nos influencia em coisas básicas na vida, as resoluções.
3. Autor(a) que mais admira.
Dostoiévsky e Gógol na prosa (não há como escolher apenas um). Ferreira Gullar, Ana Cristina Cesar, Manoel de Barros, Adília Lopes e Gonçalo M. Tavares na poesia.
4. Autor(a) contemporâneo.
Santiago Nazarian - santiagonazarian.blogspot.com (embora os últimos livros tenham mostrado uma guinada infanto-juvenil que não me interessa absolutamente). Há outros, mas não vou citar.
5. Leu e não gostou.
É difícil... Estou há cinco minutos pensando em algo e não me ocorre nada. Bom... Hum... Seria melhor “Não leu e não gostou”... Bem mais fácil... Olha... Eu leio geralmente se já tenho alguma referência prévia ou então se leio algumas páginas na livraria ou sebo e “aprovo”. Então vou citar o “Grupo de Poetas Livres” daqui de Florianópolis, o qual, quase sem exceções, obriga os passageiros dos ônibus urbanos (onde as “poesias” são afixadas) a ler uma produção medíocre, constrangedora e que produz uma sensação de “vergonha alheia”.
6. Lê e relê.
Os autores que mais admiro (lá em cima).
7. Manias.
Abraçar livros que me vinculam afetivamente (eu realmente abraço... enfim). Fazer figa em momentos tensos. Cheirar as páginas abertas de livros recém-comprados (novos ou velhos). Ler dedicatórias em old books e imaginar a história do doador, do receptor e da trajetória daquelas páginas até minhas mãos. Gosto de fitar paisagens frugais que só serão guardadas na câmara escura da memória. Sou maníaco por clássicos editados até o meio do século XX, tenho um prazer físico quando compro, por exemplo, um Theodore Dreiser de 1938. Chorar copiosa e deliciosamente ao ler os romances de Dostoievsky (ele sabe desarmar como ninguém). Imaginar o autor debruçado sobre o manuscrito, a máquina de escrever ou o PC, escrevendo as linhas que leio, a tomar café, coçar a orelha, fumar um charutão ou perder o olhar no horizonte.
E a lista segue adiante (não pode parar a brincadeira, capice?) recomendada aos “colegas”:
Brunósvky Russinho: brunomioto.blogspot.com/
Glowko Ferreira: glaucoferreira.wordpress.com/
Tiago Novo: www.repolhosdedentro.blogspot.com/
Celina Orange: saudefatal.blogspot.com/
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
EL GUINCHO E AS SONORIDADES DISSIDENTES NO CENÁRIO INDIE
Mas enfim, frente a esse contexto caótico, muita coisa que chega até nós, mesmo na cena independente, soa apenas como variações da mesma coisa (cópia da cópia deslavada) e logo temos apenas uma vaga impressão do som “daquela banda”, que nem escutamos mais (ao menos até lançarem o próximo álbum). Mas mesmo assim – thanks god! - é possível encontrar pérolas in the middle of the shit e da mesmice. Nessa edição inaugural da Hot Hot Sounds! e nas próximas, vou tentar trazer, entre outras coisas, algumas dicas do que defino como “sonoridades dissidentes no cenário indie”, ou seja, aquelas coisas boas, marcantes e (ao menos aparentemente) inovadoras que você pára e pensa: puta, porque eu não escutei isso antes!? E acaba deixando no player por muito mais do que apenas uma semana (o que nos dias de hoje já é uma ótima avaliação).
Ah, em primeiro lugar, não me peçam pra definir o que é “cenário indie”, pois essas definições enchem o saco e vem sempre alguma figura dizendo “não é bem assim...”; portanto, deixemos a coisa subentendida. Em segundo lugar, vamos ao que interessa! Hoje quero falar de uma criatura espanhola cujo som me deixou com o fôlego suspenso (embora tenha lançado seu último álbum – Alegranza! - já há vários mesinhos): El Guincho.

Esse espanhol fodão - aka Pablo Díaz-Reixa - reúne tudo o que é imaginável (e o que não é) pra fazer um álbum, sem dúvida, vibrante: dubstuff, afrobeats e tropicália, num ousado mixer eletrônico. Não é difícil ler em diversas resenhas o adjetivo “étnico” anexado ao seu nome (eu pessoalmente não gosto dessa palavra em termos musicais: tudo o que não é asséptico e anglo-saxão é taxado de “étnico”, mas enfim...). O que importa é que há muito não se ouvia tanto vigor sonoro. Sem dúvida: ouçam! Vocais em língua espanhola que conseguem ser irresistivelmente cool. Viciante! Climânico! Envolvente!

Gatzim, né? Resultado dos séculos de ocupação árabe na península ibérica... Ah, meu pai!
Atenção especial a faixa que abre o álbum, Palmitos Park, assim como Kalise (imagine-se em uma praia paradisíaca, um céu maravilhoso, uma galera inn, completamente fuckable em torno de ti e um sensação de bem estar e excitação quase insustentáveis. Então, é mais ou menos a descrição possível para Kalise), e por fim, Prez Lagarto (coisa meio caribenha, com xilofones e uma puta vontade de se quebrar na pista).
Referências
É impossível não lembrar, ao ouvir esse som, do nova-iorquino – e também “dissidente” e excelente – Vampire Weekend (eles inclusive estão excursionando juntos com El Guincho pela Europa por esses dias). Os caras do Vampire são outros que ainda vamos ler comentados por aqui...
Pontos Altos de El Guincho
Vigor. Sensação de “mein got, o que é isso!?”. Prova que ar fresco e cool fora da língua inglesa é possível.
Pontos Baixos
Alguns vocais e beats repetitivos demais.
Dêem uma Olhada e Ouvida:
http://www.myspace.com/elguincho
Entonces, by now that’s all folks!!!
Hasta luego, chicos y chicas!
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
sábado, 18 de outubro de 2008
DA MOLDURA DO MUNDO
pic by Hermes BezerraMea culpa
o roçar sensível, em minhas barbas, da ampulheta.
Faço sons (um frenesi!) com seu cristal
a toda hora...
E é algo, sim, de ardente e triste
a ânsia por ouvir, contínua
a areia tocar a areia...
Como se ao contrário,
uma vez esquecida (na placidez do grão)
pudesse compreender o impossível.
Ou então, melhor, desertar da compreensão
extinguindo o movimento.
Mas esse rio caudaloso,
essa violência estupenda
na hora de soltar as areias ao ar
[no resurrections]
a varrer tudo o que é cândido ou sórdido
me pasma e cala a palavra.
Ainda que em imenso silêncio, eu sei,
Eu sei.
É bela a moldura do mundo.
sexta-feira, 12 de setembro de 2008
SALTY FANTASTIC

Água quente,
mar de verão ao fim da tarde.
Flutuar, olhar o céu
o forte, pássaros marinhos,
homens e mulheres tasty...
Reflexos de ouro sobre a pele e ar.
Entre o medo de inchar,
após horrendo afogamento,
e o prazer de ser parte
de tudo, fantástica e realmente.
[Quebrar a ordem ditatorial
da razão chata].
So, let’s jump!
C. E. Henning






