Trabalhos artísticos, temáticas antropológicas e informações e opiniões de cunho político. Está em permanente construção - e há algo que não esteja?
terça-feira, 4 de maio de 2010
terça-feira, 13 de abril de 2010
sonhando acordado...
segunda-feira, 1 de março de 2010
Do Rubro

Ilustração de Josh Keyes
[um conto meu - sem pretensões e revisões - feito há uns 8 anos, para abrir 2010 e reanimar o blog...]
- Mas o que foi que cê foi fazê lá, criatura!? – e a mulher sacudiu o filho roxo da porrada. – Mas que bicho burro! Que é que foi se meter com Seu Junio! – e levantou o rosto magro do rapaz. Estava envergonhado com a aproximação do resto da família. – O que é que foi, Tereza!? – então, a tia Morena viu o nariz sangrando. – Santa Mãe de Deus! Que fizeram com o meu Mateus!!? – e assim todos se alarmaram. Perguntaram muito, todos ao seu redor, mas com tanto alarde e exclamações que uns interrompiam os outros e ele se via em sorte de nada ter de explicar. Tia Cecília com o lenço sujo e mofado lhe esfregou, sem cuidados, o nariz quebrado. Por fim, ainda trêmulo, se equilibrou sobre as pernas e foi se afastando, vagaroso, para seu quarto, segurando o pano imundo - agora rubro - sobre o rosto latejante.
Perdera os óculos, quebrados no imbróglio. Via os detalhes das paredes do corredor, todos borrados pela miopia, aborrecendo-o profundamente. Era um ser eminentemente visual: as cenas traziam distrações para as chateações cotidianas. Assim, sem poder ver a beleza simplória do dia-a-dia, se repetia a imagem mental do “quebra-pau” público. Nunca participara de uma luta sob o olhar de tantas pessoas (na verdade nunca participara de luta alguma. E houvera apanhado).
Seu Junio comentara, para provocar, que era ele o filho do presidiário. Pela terceira vez o homem o acusava em alta voz. – Esse daí não vai dar melhor, não. Deviam criar uma pena preventiva presse tipo de gente. – Ao ouvir, sentiu-se novamente como quando, sem os óculos, tivera que correr de um dos touros do avô: aguçara todos os instintos para se salvar. As palavras do feirante foram demais para o pacato rapaz. Que fizera para que o humilhassem? Nem se deu conta de como, mas em um instante estava agarrado aos cabelos do homem, enfiando-lhe o rosto nos tomates da barraca, joelhando-lhe as costelas e gritando todos os palavrões que lembrava. Todo o bairro concentrado na feira, em segundos, se reuniu em frente à barraca. Então , a situação cambiou e lá estava o homem imobilizando-o no chão: – É isso mesmo, seu marginalzinho de merda! Já é igualzinho ao pai ladrão! Mas se a lei não chega até tu, deixa que eu te ponho na linha! – e viu o rosto irado do homem coberto com o vermelho do tomate e seu punho se levantar.
Acordou sobre o chão sujo de restos de verduras com tapinhas no rosto de um vizinho velho que tentava levantá-lo. Pôs-se de pé rápido e viu seu Junio de costas, apoiado na mesa de verduras, arfando. Sem pensar duas vezes, correu em sua direção e lhe chutou os colhões com todas as forças, gritando em seguida: - Filho da puta! Degraçado! Maldito, lazarento! - Saiu, então, veloz sem olhar para trás e empurrando todos (o grande show do domingo).
As silhuetas das vizinhas vinham ao seu encontro pelas calçadas, borradas. – Menino! O que foi!? – era a dona Margarida (reconheceu, pois não havia outra mulher tão gorda no bairro) e acelerou a correria. - Só queria ver direito! Ver sem usar os malditos óculos! - Pensou ter visto tio Frederico, mas o homem o ignorou. Passou a mão sobre o sangue nos lábios e no queixo, visgo quente. Dentes cerrados, corrida desenfreada. Perguntava-se os motivos de apenas ele precisar daqueles óculos - Por que não ser como Tiago, Marcelo ou Pedro, que nunca se preocupavam em encontrar os malditos óculos para se levantar de manhã? - Olhou para o morro, viu os telhados da vizinhança e lembrou que seria um árduo expediente seu contato familiar naquela situação. Então, absorto e ainda correndo, chutou um cachorro que não vira, perdeu o equilíbrio e acertou um poste, ficando caído colorindo a calçada.
Voltou a si na sala de sua casa, no sofá, com a cabeça explodindo, a camiseta branca ensopada de um úmido e quente e alguns vizinhos jovens deixando-o com a mãe. Sentou-se e começou a ouvir todo o alarido previsto - Os óculos... Onde estão os malditos óculos? - As imagens mentais... Era o inferno definitivamente. Tremendo e cambaleando se trancou no quarto.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Comentando "Do Começo ao Fim" de Aluízio Abranches

EM TIRAS (preguiça de fazer diferente...):
definitivamente não é um desastre mas é fraquinho;
um tema que podia ser trabalhado com mais nuances;
linear e asséptico demais;
meio que todo mundo aceita tacitamente;
sem conflitos reais;
pouco crível;
os atores que fazem os irmãos não estão bem o suficiente nos papéis;
julia lemmertz está ótima;
tem um bom argumento;
retrata com muita naturalidade sim (e isso é legal)...
paradoxalmente "civilizado" em excesso;
não é "assexuado" (como me disseram), mas um sexo claramente forjado, sem desejo, sem graça;
quase não recomendo...
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
POIS É

[Uma crônica, coisa que não fazia há anos.
Para ler ao som de “Don’t Dream It’s Over, de Crowded House]
Acordei tarde, bem mais tarde do que esperava e ainda com aquela dorzinha chata na lombar. A luz, como que para irritar, escapava à cortina e me atingia o rosto. Qual era a minha lista de coisas para o dia mesmo? Hum, roupa na lavanderia, ler aquele artigo chato, lavar a louça, me preparar para a aula de amanhã. Era preciso regrar tudo para não deixar que o marasmo, o tédio e as lembranças me assolassem o dia.
Havia acabado um namoro de dois anos e há seis meses não nos víamos. Apenas conversas esporádicas pelo messenger, respostas evasivas, e um afastamento contínuo e doloroso. Precisava me ocupar o tempo todo ou me tornaria, mais do que já era, um imprestável.
Resolvi, então, levantar de uma só vez, espreguiçar-me, fazer um alongamento rápido para ver se a dorzinha me abandonava ao menos por um tempo. Fiz um café e me concedi pôr um pouquinho de pó de amêndoas (sou amplamente adepto das políticas auto-compensatórias, capice?).
Olhei minha gata enquanto o café coava e constatei que ela me propunha claramente uma luta de olhares with laser! Ela, sem piscar, me olhava diretamente aos olhos e eu comecei a mirá-la bem nos globinhos amarelos:
- Ah, é!? É assim, é!? Então vamos ver quem vai ganhar, sua gata safada!
- Miow... - respondeu lânguida e baixando o olhar.
- Nossa, hoje foi fácil, hein!? Sua fracote...
E fiz um carinho na cabecinha que se doava ao toque.
Precisava me pôr em movimento ou viraria um vegetal no resto do dia. Tomei o café olhando pela sacada para mais um dia cinza-paulistano e então reuni uma montanha de roupas sujas que levaria para a lavanderia quatro quadras acima, na minha rua mesmo.
Desci as escadas do prédio ouvindo Lion in a Coma do Animal Collective (great, energética!) e cantarolando a letra, abri a porta, saindo à rua. O dia parecia mais iluminado do que no apartamento (lembrei dos dark glasses, mas não voltaria buscar...) e as pessoas estavam um pouco mais sorridentes do que de costume. Involuntariamente me senti de melhor humor.
Subi a rua, vagaroso e mirador. Vi o tio coreano da venda, que se vestia meio como um boxeador, sério e de olhar bravio – sempre o imagino assistindo à exaustão os filmes do Rocky 1, 2, 3, 4... Funny... - Não o cumprimentei, é claro... Mesmo de bom humor ninguém se cumprimenta nessa cidade...
Dona Marli, cabeleireira - há nome mais perfeito que “Marli”, para uma cabeleireira? Acho perfeito! Exato! Se eu quisesse fazer um permanente só iria nela, que já pelo nome transmite know-how e confiança sem igual! - ajudava uma cliente sua, velhinha, a enfiar a cabeça no secador, sempre sóbria e bem maquiada.
Passei também por um homem mais velho, cabelos brancos, mas jovial, que está sempre sentado na entrada de um edifício, com uma bengala. Usa roupas moderninhas e parece íntegro, confiável, enfim, deu-me vontade de parar e do nada começar a conversar com ele, mas, é claro, não tive tanta coragem e segui para a lavanderia com um sorrisinho alegre de canto de boca.
Em pouco tempo invadiu-me a mente a vontade de que fosse a dona da lavanderia que me atendesse, e não a gerente – que era uma grosseirona de marca maior. Porém, assim que cheguei à porta vi a gerente com seu olhar de peixe-morto e sua cara de má-vontade. Disse-lhe um bom dia e ouvi um grunhido de resposta. Ela que acabava de deixar ao chão um saco de roupas de uma moça que estava no balcão veio até mim e pegou a sacola que lhe estendia.
Olhei para o lado e vi que outra cliente era a vizinha nova, do apartamento 6, logo acima do meu e a cumprimentei. “Bem que me disseram...”, pensei, era verdadeiramente bonita: uns olhos que ardiam, como aquelas pessoas que têm inquietações existenciais, olheiras leves, devia ter lá os seus um metro e setenta, magra, mas não demasiado, talvez 26 ou 27 anos e quando sorria era de um encantamento desconcertante. Venci a timidez e perguntei:
- Você é do 6, não é? – e sorri.
- Sim, sim... Mudei ontem. Você é do...?
- Do 4. E... E então, está gostando da região?
- Ah, sim... Aqui é meio perto de tudo, não é? Metrô, teatros, cinemas e tal. Acho que vou gostar bastante, sim... Mas... Qual é o teu nome mesmo?
- Ah, pois é... Leo, e o seu?
- Lisa. Bom, é Elisabete, mas pode chamar de Lisa, mesmo. – e estendeu a mão.
E nesse ponto a gerente nos interrompeu:
- Olha, moço, eu já pedi pro senhor separar as peças, to vendo aqui que o senhor deixou cueca com camisa, com toalha...
- Ah, pois é... Desculpe, é que eu saí meio com pressa e esqueci de separar.
- Da próxima vez vê se não esquece. Agora eu vou ter que separar aqui...
E então, para meu espanto, começou a tirar as peças de roupa e pô-las sobre o balcão, sob as minhas vistas e as de Lisa, iniciando logo pelas cuecas... Rangi os dentes de imediato e pensei comigo: “Vaca, maldita! Vai fazer isso de propósito para se vingar!” e fiquei completamente constrangido: minha vizinha e um senhor que acabava de chegar observavam minhas cuecas sujas sendo jogadas compulsoriamente bem na minha frente.
- Moça, é preciso fazer isso agora mesmo?
- É preciso sim! Não seria preciso se já viesse separada!
Silenciei roxo de ira, sentindo ganas de lhe espremer o pescoço ali mesmo. Lisa então, visivelmente com pena de mim, perguntou quanto devia pelo serviço ao que a "abençoada" da gerente respondeu dizendo que podia pagar quando retirasse as roupas. A vizinha então se virou rapidamente para mim e disse:
- Legal te conhecer, Leo!
E eu, sorrindo amarelo e ainda meio atordoado e constrangido (a gerente pegava da sacola exatamente a última cueca – branca – que restava), respondi:
- P...Pois é...
E seguiram-se uns dois segundos do mais denso silêncio...
- Tá, a gente se fala. Até mais! – disse-me, acenou e se foi. E eu fiquei pensando comigo mesmo: “Pois é!?” Não havia algo melhor a se dizer que um “pois é”!? Por favor, Leonardo! Virei então para a gerente e com olhos crispados, disparando mísseis orientados bastante concretos, metralhei em bom som:
- Vamos lá, minha filha que eu não tenho o dia todo, não! É pra hoje?! Tô com pressa! Vou reclamar para a dona Sofia dessa sua lerdeza!!!
Toda a minha grosseria contida ao longo de décadas foi regurgitada sobre a “doce” gerente, que me olhou com seus olhos de peixe morto, grunhindo alguma coisa incompreensível e continuando a executar tudo com a sua habitual má vontade. Eu, então, já não a olhava, estava olhando para dentro de mim.
Constatava que definitivamente havia arruinado meu dia.
___________________
P.S. Ilustração (autor desconhecido) retirada do site: http://jornale.com.br/horasonora/?p=1789)
terça-feira, 10 de novembro de 2009
SOBRE A COMUNICAÇÃO E SUA FALTA
Novamente
a mesma cama
Aquela em que meu avô
reviu saudosos compadres mortos
e em que me confidenciou a reunião,
seu affair com a enfermeira
e que morreria três dias depois,
quando, de fato, morreu.
A mesma cama
novamente
Três dias antes de morrer
para a colheita
para o planejamento da vida
da morte, da herança,
para a plantação de mim.
I shall pick the fruits of that youth…
Verdes, maduros, podres, que seja.
Quero todos…
Darei um belo suco
aos porcos que me habitam
[Semente estéril no caminho para o encontro]
Os porcos, o affair, a cama
Os compadres mortos
São meus, os três dias.
E a confissão.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Dos Vínculos e de Como Perder-se (e Achar-se) na Melancolia
Lembro-me de detalhes: do caminhar pelo Farol da Barra, das risadas, dos chistes, das negociações escusas diárias com taxistas, das gossip generalizadas, de las galletitas, de la dulce Niña Masturbadora (aka Fátima), de la Mujer Thailandesa (aka Giank), y de Penélope Cruz (aka Julie), como no!? Y también de Zeca e Neto, queridíssimos, que nos levaram pra lá e pra cá na bela Salvador...
E também de tantas outras pessoas muito especiais, como: Marília, Lia, Monique, Djaime-Boy (aka Nilmar), Laura, Germán, Gleydis, Lucimar, Georgia, Olívia, Maíra, Cris, Washington, Carla, Terezinha, Ivonete, enfim... Muita gente... D@s últim@s, alguns(mas) me aproximei mais do que outr@s, mas fiquei com um carinho e uma admiração grande por tod@s.
Pensei também em como eles agora estavam há milhares de quilômetros e que tenderíamos a nos ver bem esparsamente e fiquei triste, pesaroso... Como as pessoas passam por nossas vidas, deixam marcas tão fortes e se vão, talvez para todo o sempre? Enquanto eu estava com eles (e a convivência maior acabou sendo mesmo com Fatita, Giank, Julie e Zeca) me sentia muito bem, feliz, seguro e pleno, porém só percebi a importância dessas conexões e o caráter limitado que elas poderiam ter em seu sentido pleno dali por diante, apenas alguns dias após a partida deles (ou da minha própria partida)... Como o Tempo oferece such a rapture e ri-se de nosso êxtase ao compreender o irônico do que nos será extraído logo adiante... Como a visão da colher de sopa cálida que nos é oferecida para não ser dada...
O problema é que ao contrário de muita gente, eu não esqueço... Esses vínculos e a presença da ausência dessas pessoas que me apaixonaram de maneira fulminante me marcam por muito, muito tempo... Lembro-me de um amigo que fiz na 2a série e que há alguns anos não tenho mais notícia alguma. Lembro-me e sinto uma saudade doída, gostaria de saber como está, o que anda fazendo da vida, se deixou de ser depressivo-suicida como era na adolescência, se é feliz, se ainda recorda de nossa amizade.
Lembro-me de amigos há décadas... Não me esqueço, fazem-me falta doída... Penso vez em quando com uma melancolia áspera... Não esqueço e nada preenche essa ausência... O preço que se paga pelo arrebatamento...
Vez por outra é mais sentida essa presença da falta... Não é constante, necessariamente (thanks, god!)...
E apesar do ônus dessa dedicação amorosa aos amigos, eu prefiro sentir tudo... Seja dor, a felicidade, a saudade, a melancolia, enfim... sem Propofol nas veias... é melhor (d)existir with eyes wide open... Deixar-se tomar pela alegria e a dor de amar e deixar-se amar nas formas mais amplas permitidas pela plasticidade semântica...
Love hurts, já dizia a música cafona... Mas vale a pena, for sure.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
LENDO HAMLET
No cemitério, à direita, cobriu-se o túmulo de pó
e, por trás dele, brotou um rio azul.
Tu me disseste: "Então
vai para o convento
ou casa-te com um idiota..."
Só os príncipes falam sempre assim.
Mas eu me lembro dessas palavras:
deixem que elas flutuem por cem séculos
como um manto de arminho jogado sobre os meus ombros.

E como por engano
eu disse: "Tu..."
Iluminou-se a sombra com o sorriso
suave do meu amado.
Esse é o tipo de deslize da língua
que faz com que todo mundo fique te olhando...
Mas eu te amo, como quarenta
meigas irmãs.
Anna Akhmátova
1909
Kiev
domingo, 21 de junho de 2009
segunda-feira, 1 de junho de 2009
Os Entardeceres, os Bichos e Eu
Esse parque sempre me assombrou, desde o primeiro momento. É belo, com um amplo lago repleto de patos, pássaros, árvores e recantos plácidos. Tem um quê de ermo e misterioso, perigoso, até. Mas belíssimo. Pouco há, mais sublime, que o céu esvaecendo por entre os galhos, ao se caminhar vagaroso, olhando o sol a definhar e as aves de todas as cores e tamanhos voltando da jornada para abrigar-se da escuridão: um exército de plumas fatigadas.
Quando da primeira vez, após caminhar animado 500 metros diminuí o passo para compreender o que via: havia vários coelhos soltos, de todas as cores, pelos gramados. Diminuí o passo a observá-los, me pareceu algo estranhíssimo. Totalmente inesperado... Aumentei o passo, ainda impressionado, porém ao andar mais alguns minutos, estaquei embasbacado: uma família de capivaras se alimentava candidamente por entre galhos e gramas, completamente destemida, frente aos transeuntes. Cheguei até a temer, "esses bichos não atacam?"; "são grandes roedores, não?". Como era possível que em uma cidade como Campinas, em um parque público ao lado de umas das maiores universidades do país, existissem animais como aqueles, soltos, por entre as pessoas? Não haveria algum tipo de risco recíproco? Embora chocado, havia algo de exótico e delicioso em caminhar junto àqueles animais que me ignoravam solenemente, como se eu mesmo não fosse nada mais que um animal obviamente inofensivo.
Sim, pode tirar, esse é o meu lado fotogênico.Continuei a caminhar lembrando que as capivaras sempre povoaram meu imaginário infantil. Meu avô contava de suas caçadas, do tamanho dos bichos, das disputas pela vida, das fugas inacreditáveis e dos jantares entre homens, no meio do mato, entre pescarias, tatus, pumas e tudo o mais.
Eu jamais havia encontrado uma capivara sem um fosso e muros bem altos que nos separassem... Pela primeira vez pude perceber que sempre houvera uma espécie de apartheid em relação a coexistência com certos animais. Refiro-me, as esses contextos de zoológicos, todos, na lembrança infante, bizarros, fétidos e desagradáveis. Confesso que não vejo objeções a continuidade do apartheid quanto às onças, os ursos e elefantes...
Mas ali, com uma capivara cruzando meu caminho como alguém que passa, frugal, para pegar algumas pedrinhas de açúcar era algo certamente um tanto insólito...
Porém, com o passar das semanas, fui-me acostumando a rotina com aqueles companheiros de jogging fora do comum. Hoje, ao voltar a caminhar no parque quase deserto, peguei-me a pensar sobre a possibilidade de que outros animais, caçadores carnívoros, pudessem ir ao parque para manjar coelhos, ovos de aves e filhotes de capivaras e continuei a caminhar, dessa vez mais vagaroso e instintivamente mais atento.
Oi, eu sou a Vilma, muito prazer! E vosmecê, é solteiro?
Ao caminhar cerca de 800 metros, sozinho em uma curva de mata densa, pude ver um animal de pequeno porte, há uma distância de 60 metros, que parecia um cachorro de 50cm de altura, correndo em círculos, muito rápido, porém bastante magro, com um rabo peludo, grosso e percebi que não se tratava de nenhum cão... Era um outro animal selvagem, bastante veloz e talvez perigoso. Diminuí o passo. Como era pequeno, tive vergonha de voltar daquele ponto (vergonha d'eu mesmo pois não havia mais ninguém por perto) e pensei, já bastante receoso, que o animal talvez temesse meu porte. Ele logo percebeu minha presença e manteve-se em uma postura entre defesa e prestes ao ataque. Seus olhos brilhavam no escuro das 18 horas como os dos gatos e percebi que ele um tanto abaixado, na expectativa, tentava entender o quão perigoso poderia eu ser, ou (uma vez que não especializado em psicologia de animais selvagens) o quão apetitosa minha canela poderia ser.
Continuei a caminhar. Ele estava agora há cerca de 6 metros e percebi que não se afastava. Ao passar pelo bichano vi que ele começou a me acompanhar lateralmente, mas mantendo a distância. Isso verdadeiramente me assustou, pois percebi que o bicho tinha algum tipo de expectativa de um jantar mais generoso. Bati algumas palmas para assustá-lo como reação instintiva com o susto que tomara e pude ver que de perto ele parecia um pequeno lobo. Logo desistiu de me perseguir e continuou correndo em círculos, muito rápido, ora entrando no mato escuro, ora saindo para o passeio, enquanto eu me afastava, apressado. Nesse momento senti uma vontade enorme de reafirmar os apartheids entre nós e os bichos... Eu aqui e você lá. Fossos, cercas e distâncias!
Foi irônico pensar que geralmente nos assustamos com a violência das cidades, medo de morrer em um assalto, ou acidente de carro ou coisa que o valha e eu estava ali, realmente assustado com o que poderia acontecer com um animal selvagem de 50cm, provavelmente morrendo de fome, que cogitava lanchar a piece of me (acho que Britney não chegou a pensar em uma tiradinha trash dessas). Enfim... foi uma experiência estranha e por incrível que pareça me ajudou a sair de meu persistente estado de espírito melancólico, ao menos por algumas horas, e sentir-me bastante vivo. Quando há algum tipo de exposição a um risco real (ou assim percebido) é bem comum sentir vontade de respirar a plenos pulmões... Suspirar feliz... por... por poder propriamente suspirar...
[Mas confesso que tive vontade de ter um spray de pimenta ou aquela coisa que dá choque para usar contra o bicho, se ele quisesse me atacar... Imagine a cena patética! Um homem de um metro e oitenta atracado com um bichinho de 50cm jogando-lhe spray e dando-lhe choques...].
Risível... Patético...






